António Gedeão

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O poeta António Gedeão escreveu este belo poema que menciona o jardim.

“Saudades da terra”

Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas … saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer – quem sabe? – ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.
Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.

António Gedeão

Audio: http://www.estudioraposa.com/poetas/antonio_gedeao_saudades.mp3

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Os Maias

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O Jardim é brevemente mencionado no famoso romance de Eça de Queiroz, Os Maias, no Capítulo XV. O jardim é usado como ponto de encontro.

Mas o Cruges apareceu enfim de chapéu alto, entalado numa sobrecasaca solene, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipóia estreita e dura. Carlos ia leva-los a casa do Dâmaso. E como queria ainda jantar nos Olivais, esperaria por eles, para saber o resultado «do chinfrin», no jardim da Estrela, junto ao coreto.

(…)

Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrela, Carlos já esperava ao portão de ferro, numa impaciência, por causa do jantar na Toca.

Eça de Queiroz

MEO Out jazz 2015

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A 9.ª Edição do MEO Out jazz  regressa no dia 2 de maio à capital. Pelo quarto ano consecutivo, o MEO alia-se à iniciativa garantindo a presença da odisseia musical pela cidade durante cinco meses, de maio a setembro.

Perto de celebrar uma década de existência, o evento que detém um lugar de destaque na agenda de residentes e turistas regressa aos jardins, às praças, aos miradouros, às alamedas e às ruas da cidade.

Este ano vai estar presente no Jardim da Estrela, nos domingos do mês de Agosto.

Cartaz: https://www.meo.pt/universo-meo/espetaculos/meo-outjazz